quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Qualidade de vida?


Eu sempre morei em uma cidade do interior, São Carlos. Por isso, nada é mais comum por aqui do que o "êxodo rural", as pessoas vão pra capital estudar, trabalhar ou por qualquer outro problema de [falta de] equipamento urbano.


Hoje eu fui comer um bauru com a minha família em um lugar escondidinho (um quintal de uma casa, onde o dono faz um bauru como ninguém, segundo opiniões do pessoal que freqüenta) e na mesa ao lado tinha um grupo de amigos. Claro que, sem nada pra fazer, eu fiquei ouvindo a conversa, e um dos caras disse "ah, acho que alguém fez a cabeça do fulano, ele tava resolvido a ir pra São Paulo", ai outro respondeu "ah, mas ele tá certo de ficar, vai trocar ibaté [cidadezinha mínima colada com São Carlos] por São Paulo?" ai uma mulher " É, e a qualidade de vida, né? Aqui dá até pra fazer pique-nique(?) na praça".


Primeiro: eu apostaria meu lanche (hehe) que essa mulher nunca faz pique-nique na praça, e que eles nunca moraram em São Paulo. Segundo: o que é qualidade de vida pra você?


Eu vivo muito mais feliz hoje, morando em São Paulo e vindo em finais de semana para São Carlos, e , com certeza, minha vida tem mais qualidade hoje! Não é nada pessoal, Carlinhos, eu adoro minha terrinha natal, mas gosto muito de São Paulo, e realmente acho que a cidade tem muito mais a oferecer!


Qualidade de vida pra mim é poder ter acesso a um universo cultural enorme, poder estudar na maior universidade do país, poder ir aos melhores shows, poder assistir aos jogos do meu amado time, e ter todas as opções de consumo, de especialistas em saúde e outras áreas. Morar em São Paulo é andar na Av. Paulista, ir ao Teatro Municipal, à Sala São Paulo, atravessar o viaduto do chá, andar de metrô, é acompanhar a mostra internacional de cinema, é abraçar a mochila enquanto caminha no centro velho olhando pra cima de tanto encantamento. Se eu quiser um pouco de verde, vou ao ibirapuera, ou até mesmo à USP. Quer coisa mais calma do que São Paulo de domingo?


Eu não quero tanta tranqüilidade assim, Ibaté é um tédio!


Que preconceito com São Paulo! Acho que não preciso ressaltar a importância da capital pro interior, né?



Obs: São Carlos tem tanta importância pra mim quanto São Paulo [e vice-versa...huhu]

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Eles têm pai, eu tenho um ventilador


Eu nunca tive pai, pelo menos na minha opinião. Minha mãe diria que eu tive até os 10 anos, minha avó, que eu tive um substituto. A verdade é que meu pai esteve presente enquanto eu era um bebê, e nessa época esteve presente mesmo, pelo que conta minha mãe, já que ele não deixava que me colocassem meia, não admitia barulho perto do meu quarto, e coisas desse tipo. Claro que foi muito importante esse cuidado nos meus primeiros anos de vida, mas eu não lembro de nada disso, então não reconheço o meu período com pai.



Depois disso meus pais se separaram, e a distância do meu pai aumentou, claro! Ele me buscava em alguns finais de semana com seu fusquinha azul e comprava presentes ou me levava na casa do meu tio rico pra andar de Jet-Ski(?). Ele tentava uma aproximação, era super carinhoso, eu evitava chamá-lo, porque sabia que meu dever era amá-lo e chamá-lo de pai, mas não conseguia pronunciar essa palavra.




Até que ele teve um derrame, e ficou na cadeira de rodas, e pior: meu tio rico o colocou num asilo. O lugar era agradável, cheio de árvores, mas não se adequava ao estilo de vida dele, que sempre gostou de festas e muita farra. Eu ia visitá-lo, com um sentimento de pena e com muita hesitação, já que intimidade nunca estivemos perto de ter.




Ele teve o segundo derrame e morreu. Eu chorei muito no velório, e me surpreendi com isso na época. Hoje sei que eu sentia muito carinho por ele, mas um carinho muito superficial.




Enfim, muito antes de ele morrer minha mãe arrumou um outro homem, com quem ela teve meus dois irmãos. O clima com meu padrasto sempre foi de guerra. Esse ano, como fui morar em outra cidade, a gente conseguiu coexistir! Meu tio Luiz, que é também meu padrinho já foi uma figura paterna presente, que dançou valsa comigo nas minhas formaturas e no meu aniversário de 15 anos. Sempre senti falta dessa figura paterna, pelo menos pra me incentivar no futebol, que minha mãe não me deixava jogar ("é coisa de menino").




No lugar do meu pai, tenho hoje um ventilador que ficou entre as lembranças que busquei na casa em que ele morava. Esses dias o calor está infernal aqui em São Carlos, e não sei por qual motivo só tem esse ventilador na casa. Meus irmãos queriam, mas eu disse que era minha herança! Resta saber o que é mais valioso...o pai deles ou meu ventilador?