segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Eles têm pai, eu tenho um ventilador


Eu nunca tive pai, pelo menos na minha opinião. Minha mãe diria que eu tive até os 10 anos, minha avó, que eu tive um substituto. A verdade é que meu pai esteve presente enquanto eu era um bebê, e nessa época esteve presente mesmo, pelo que conta minha mãe, já que ele não deixava que me colocassem meia, não admitia barulho perto do meu quarto, e coisas desse tipo. Claro que foi muito importante esse cuidado nos meus primeiros anos de vida, mas eu não lembro de nada disso, então não reconheço o meu período com pai.



Depois disso meus pais se separaram, e a distância do meu pai aumentou, claro! Ele me buscava em alguns finais de semana com seu fusquinha azul e comprava presentes ou me levava na casa do meu tio rico pra andar de Jet-Ski(?). Ele tentava uma aproximação, era super carinhoso, eu evitava chamá-lo, porque sabia que meu dever era amá-lo e chamá-lo de pai, mas não conseguia pronunciar essa palavra.




Até que ele teve um derrame, e ficou na cadeira de rodas, e pior: meu tio rico o colocou num asilo. O lugar era agradável, cheio de árvores, mas não se adequava ao estilo de vida dele, que sempre gostou de festas e muita farra. Eu ia visitá-lo, com um sentimento de pena e com muita hesitação, já que intimidade nunca estivemos perto de ter.




Ele teve o segundo derrame e morreu. Eu chorei muito no velório, e me surpreendi com isso na época. Hoje sei que eu sentia muito carinho por ele, mas um carinho muito superficial.




Enfim, muito antes de ele morrer minha mãe arrumou um outro homem, com quem ela teve meus dois irmãos. O clima com meu padrasto sempre foi de guerra. Esse ano, como fui morar em outra cidade, a gente conseguiu coexistir! Meu tio Luiz, que é também meu padrinho já foi uma figura paterna presente, que dançou valsa comigo nas minhas formaturas e no meu aniversário de 15 anos. Sempre senti falta dessa figura paterna, pelo menos pra me incentivar no futebol, que minha mãe não me deixava jogar ("é coisa de menino").




No lugar do meu pai, tenho hoje um ventilador que ficou entre as lembranças que busquei na casa em que ele morava. Esses dias o calor está infernal aqui em São Carlos, e não sei por qual motivo só tem esse ventilador na casa. Meus irmãos queriam, mas eu disse que era minha herança! Resta saber o que é mais valioso...o pai deles ou meu ventilador?

4 comentários:

Noubar Sarkissian Junior disse...

eu sempre tenho receio em tratar sobre seu pai, linda...ainda que eu tente, não há como imaginar qual a relação que vc teve (te) com seu papa!
bom, vc é que deve julgar se um ventilador foi mais importante do que seu padrasto pra vc...mas pense em tudo. Mesmo nas coisas que julga banais! Use seu olhar sociológico pra entender parte das ações do edson.
Fique bem!
Dinho

Camila de Sá disse...

dani,
que bom poder ler algo seu novamente!

e esse é um texto que parece ter vindo da alma, daqueles sentimentos guardados há tempos, talvez um desabafo.
enfim, acho difícil comentar isso aqui.
você tocou num assunto de uma densidade psicológica... é preciso te conhecer mais pra dizer algo que realmente importe diante dessa história.

aqui em casa, há uma distância grande entre meu pai e nós, filhos!
mas de um tempo pra cá, tento dar uma chance a nossa aproximação... é a coisa mais lenta que já acompanhei! e sei que dificilmente nossos gestos soarão naturais um dia, sabe?
é um clima nem um pouco leve, mas a mágoa intocada talvez seja ainda mais pesada... sei lá, é complicado demais!
enfim,quando quiser, sou toda ouvidos!

ah e bem-vinda ao blogger novamente!
escrevendo sobre assuntos difíceis, mas escrevendo sempre bem!
bjo

Anônimo disse...

Dani!!! Hoje, pela primeira vez, vim fuçar seu blog. Senti muito o que eu comento sempre com o Nubita sobre blogs. Me senti próxima de você. Próxima de uma intimidade sua que, acredito, seria muito difícil de alcançar nas mesas de bares, nas pizzarias ou no boliche, que é mais ou menos onde a gente quase sempre se encontra. rs.

Beijão!

diri disse...

Dani, que texto bonito! O "ventilador" do título se explica no final, as coisas se ligam e o mais importante: você se arrisca. Schopenhauer fala que o problema de muitos escritores é que eles não se mostram porque são muito orgulhosos; por isso dão voltas e voltas no texto. Você não. Você se mostra e me envolveu bastante na narrativa. Procurarei ler mais!
Beijos